Meu amigo morreu e uma dor sufocante me tortura
- blogcyzo
- 14 de jan. de 2024
- 9 min de leitura
Atualizado: 29 de jun. de 2025
Esse não é um 'artigo' e sim uma partilha em forma de um relato. Se você vive um luto agora conselho a não fazer essa leitura. Se você está com pouco tempo também não é recomendável. O que escrevo a seguir é um pouco extenso. Mas é uma partilha com uma linguagem de uma alma que sofre uma dura perda neste momento.
Em minha atividade em espiritualidade e psicoterapia clínica muitas vezes deparei com o sofrimento enorme de pessoas que viviam/vivem um luto. Uma terapia do luto requer muita escuta e é preciso lidar de forma muito lúcida com as diversas fases do paciente. É um processo demorado e as vezes difícil quando você imagina que uma série de possibilidades na vida de seu paciente foram bruscamente interrompidas. O luto de primeiro grau tem uma dor cáustica. Eu o vivi. O paciente com a dor do luto requer muito de acolhida e compaixão. Há momentos na sessão que você quer chorar com ele. Mas o que ele precisa não é de mais choro e sim de acolhida e fortalecimento.
No auge de minha juventude vivi um duro luto com a morte de um querido mano de apenas dezessete anos. Foi um golpe horrível e muita dor para mim. Acima de tudo, a dor de meus pais foi a situação mais difícil de vivenciar. Meu amado e jovem irmão infelizmente foi assassinado com um tiro de uma arma de marca Taurus na maior cidade do Brasil a década de oitenta.
O meu segundo luto foi com a perda de uma querida amiga. Ela deixou sua zona de conforto na sua amada Alemanha, seu país de origem e veio integrar uma missão social que eu presidia no sul do Brasil no final dos anos noventa. Já nos conhecíamos de alguns anos anteriores quando de minhas primeiras viagens de trabalho à Alemanha. Uma mulher pedagoga, com formação também em PNL e de uma visão humanista incrível. Tinha na sua cidade natal na Alemanha uma bonita rede de amigos e pessoas que eram muito gratas a ela pela forma como ela cuidava de seus filhos em atividades de educação escolar. Seu sonho era fazer um trabalho voluntário e altruísta na América do Sul. Quando ela conheceu nossa missão procurou formas de se envolver. Por fim, compartilhamos uma vida de missão, amizade e muita corresponsabilidade por dezesseis anos seguidos.
Alexa Bündgen - ⭐ 01.08.1952 ✝️ 29.04.2021. Foto: arquivo pessoal

Com a minha querida amiga Alexa aprendi a ressignificar a amizade.
Através da pessoa dela na Alemanha tive novas e bonitas conexões e fiz outros amigos queridos. No ano de dois mil e sete ela retornou definitivamente para a Alemanha. No ano seguinte, pude estar com ela por várias semanas e viagens de trabalho por regiões da Alemanha. Em dois mil e nove ela detectou um câncer. Começou uma luta. Cada semana trocávamos e-mails e tenho todos guardados para um dia ser talvez um livro onde a linguagem da alma será a expressão.
Sabendo que minha querida amiga não tinha mais tanto tempo de vida fui visitá-la para uma ação de gratidão a ela no segundo semestre de dois mil e dez. Foi marcante para mim lhe dar o último abraço quando despedi algumas semanas depois. Apesar de ela estar bem ativa e levando uma vida quase normal, ela me dizia que seu tempo de vida era sempre mais curto. Eu e um amigo querido compartilhamos inesquecíveis momentos com ela naquele outono à beira do Rio Reno. Nossos e-mails em dois mil e onze eram sempre mais curtos. Ela estava sempre mais doente. Seu último e-mail foi três semanas antes de ir a óbito. Quando li as frases desabei e sabia que ela estava mesmo indo embora:
“Querido Cyzo… estou muito cansada… Minhas forças são cada dia menos. Meu espírito está vivo e sei que preciso ir. Estou em paz, com muita paz. E vocês como vão aí no Brasil? Tenho lembrado de tantos momentos bonitos que vivemos com as pessoas aí. Fica meu amor para você e para todos vocês. Ich liebe aller! Deine Alexa."
Dois anos após seu óbito voltei a Alemanha e foi muito duro visitar seu belo túmulo com alguns amigos comuns. Nós nem sempre estamos preparados para a Irmã Morte em nós ou nas pessoas que amamos. Tenho em meu consultório um lindo quadro que Alexa me deixou como um presente que só se partilha entre amigos. Ela tinha essa tela desde a sua infância.
Sempre primei pela amizade. Não saberia viver minha vida sem fortes conexões com pessoas de ambos os sexos e de diversas idades. Amizade para mim é uma relação de alma e nada mais. O próprio Cristo necessitou da amizade humana e preferiu chamar os mais próximos a Ele de amigos e não de “ministros” ou algum nobre título (Evangelho de João 15,15).
Sei por experiência que amigos não enchem os dedos de uma mão. Muitos confundem amigos com colegas, vizinhos, conhecidos, parentes, etc. Os amigos são imprescindíveis para nossa saúde mental e espiritual. A amizade, como um campo bem preparado para a semeadura não se dá com muitas pessoas. Muitos não têm condições de semear com você ou não sabem cuidar da semente. A amizade é uma ação de mão dupla e contínua. Não funciona de um lado só. Pessoas de ego grande ou muito frágil não conseguem cultivar uma saudável e durável amizade.
Quando estudei filosofia me ative muito em reflexões de alguns estoicos que falam da amizade como um valor maior e nobre. Aristóteles perguntou e respondeu:
“O que é um amigo? Uma só alma em dois corpos ”.
Platão refletiu muito sobre a natureza da amizade e do amor. A partir do século XX os psicólogos nos ajudam a compreender como a amizade é fundamental para nosso equilíbrio e nossa melhor versão.
Sabe-se que pessoas com bons amigos vivem mais e mais saudáveis. Elas têm nos seus amigos um “antioxidante” para uma alma. Aprendem o valor da troca, do colo, do ombro amigo e da cumplicidade. As escrituras judaicas não cansam de repetir que ter um amigo é ter um tesouro. Acredito e acolho essa descendência milenar.
Amanhã faz um mês que meu amigo morreu
Luiz Eduardo Moura Toth - 21.04.1973 a 26.09.2021. - Foto: arquivo pessoal

Sim. No dia 26.09.2021 eu e muitas pessoas perdemos o querido amigo Luiz Eduardo Moura Toth. Sua morte não era esperada como a da minha querida amiga Alexa. Por isso o luto agora eu vivo de uma outra forma. Edu não estava doente. Há alguns meses nós tínhamos planos em conjunto para uma viagem com mais dois amigos queridos.
O Eduardo é dessas pessoas que a gente gosta de estar junto. Sua alma sempre iluminada e meiga nos trazia leveza e bondade. Nunca escutei ele falar ou julgar alguém. Nunca viveu uma espécie de “representação”. Era um artista plástico e que captava em uma tela o mais belo da vida. Viveu de uma forma frugal e altruísta. Sua última postagem em seu Instagram foi em uma noite fria em final de julho último e com sua original doçura escreveu:
“Caminhei pelas ruas de Osasco e não encontrei irmãos ao relento. Muito grato fiquei com essa visão. Espero que todos acolhidos e bem-amados! ” - 30.07.2021.
Infelizmente ele não gostava muito de escutar seu próprio organismo. Era dessas pessoas que nunca queria ir ao médico. Como sempre foi saudável não ligava para pequenos desconfortos. Não sabia que estava com uma Pneumocistose. Ficou semanas achando que era uma gripe sazonal. Não teve Covid-19 e na primeira suspeita fez os devidos exames e não estava infectado pelo Coronavírus. Infelizmente quando a situação começou a se agravar era tarde e no hospital o corpo clínico sabia que meu amigo caminhava inevitavelmente para um óbito. A Pneumocistose é uma doença infecciosa oportunista causada pelo fungo Pneumocystis jirovecii , que atinge os pulmões e causa dificuldades para respirar, tosse seca e calafrios.
Com seus pulmões sempre mais tomados pelos fungos, foi necessário que se intubasse. Ele ficou de acordo com a intubação e sabia que provavelmente não sairia mais do hospital com vida. Na véspera da intubação teve um diálogo serenizado com sua querida mamãe. Pode ainda, com um amigo muito querido que o visitava deixar palavras dóceis para os demais amigos. Na madrugada do dia 26.09, um domingo, ele partiu desse mundo. Entrou no reino da luz!
Como é fazer um amigo?
Obviamente que não existe uma fórmula. O Edu eu o conheci em dois mil e dezesseis em São Paulo através de um amigo meu de muitos anos. O meu amigo foi uma ponte para que eu chegasse até ele. Uma conexão de alma nasceu. Ele passou a se envolver em alguns dos programas que eu desenvolvo em psicoterapia e mindfulness. Ajudava voluntariamente em finais de semana. Poucos meses depois nós erámos como antigos amigos. Nossas prosas fluíam e nossa visão da beleza da vida eram muito parecidas. Ele também viu que eu estava naquela fase lidando com alguns “demônios” e soube se colocar como apoio moral e amigável junto a mim. Sendo quinze anos mais novo que eu, muitas vezes, me dizia que eu precisava cuidar de mim mesmo. Quantas vezes ele me trazia àrealidade ao pedir:
“Cyzo, você precisa deixar de ser tão workaholic. Você precisa de pausas, de férias e de mais descanso. Lembras que és um cirurgiado e que estás ficando velho? ”
Meados de dois e dezoito fui levado de surpresa para fazer em pouco dias uma mega cirurgia cardíaca onde recebi quatro pontes: duas safenas e duas mamárias. Infelizmente tenho por hereditariedade tendência à calcificação. Como vegano e quase duas décadas sem consumo animal, não tinha veias entupidas de gordura, mas em calcificação. Uma rede de apoio de parte da minha querida família se formou e recebi todo o suporte de que se precisa nessa hora.
Nas primeiras noites após a cirurgia o Edu veio para me assistir no pós-operatório. Participou de minha agonia nas madrugadas onde as dores se faziam intensas e quase sem controle. Quem passou por essa cirurgia em que se abre o tórax sabe o que falo. Ele foi o meu “anjo de guarda”. Após o hospital retornei para casa e ele para sua casa. Meses mais tarde tive que descer para uma missão no sul do Brasil. Eu ainda estava em fase de recuperação. O Edu então me acompanhou e me deu o mais generoso suporte nas diversas atividades que desenvolvi no último trimestre de dois mil e dezoito e todo o ano seguinte.
Me acompanhou para uma atividade de espiritualidade em Florianópolis. Depois voltamos em dezembro de dois mil e dezenove para São Paulo. Ele foi para sua família. Combinamos de nos reencontrar nas próximas atividades em mindfulness em março e maio do ano seguinte. A chegada do Coronavírus desfez todas as agendas e programas. Durante o ano de 2020 e com o confinamento, muitas vezes falávamos via chamada de vídeo e ele sempre me atualizava com novas séries e filmes. O que me marcou na amizade com esse querido amigo:
sua acolhida ativa para todas as pessoas. Sua alegria mesmo em meio às dificuldades. Sua disposição em fazer um prato que sempre continha muito sabor. Seu gosto pelo vinho e pela prosa sem hora marcada para terminar. Ele saudava o garçom como se já o conhecesse a muito tempo. Adorava visitar museus, centros de cultura e arte. Fotograva detalhes da natureza e construções antigas. Suas fotos não têm nenhum tipo de filtro. Amava ver filmes que nos deixam com a alma mais leve.
Conversávamos sobre nossa próxima viagem para Israel e queria muito que eu e dois amigos parássemos em Londres, alguns dias para estar com um querido amigo dele lá há mais de vinte anos. Edu em sua juventude viveu alguns anos em Londres e aprendeu bem a língua inglesa. Ao voltar para o Brasil se tornou um competente professor de inglês entre outras atividades. Eu me sentia encorajado para estar dez dias em Tel Aviv tendo ele como nosso intérprete.
Tudo isso foi interrompido bruscamente.
Venho falando com a sua mamãe ao menos a cada dez dias ao telefone. Ela, que eu não a conhecia bem me deixa saber de onde vem toda a ternura do Edu. Ela é portadora dessa ternura e doçura. Obrigado Ana que nos deu esse lindo ser humano! Estou mais pobre sem a amizade do Edu. Ele foi embora muito cedo com apenas 48 anos.
Acho que a vida é mesma mistério e que nós só a vivemos quando vivemos também amizades verdadeiras. Também preciso dar suporte amigo ao amor que o Edu deixou e que sofre muito mais que eu. No luto aprendemos a carregar uns aos outros de uma forma que não aprendemos sem essa vivência. Obrigado Eduardo, querido amigo, vai ser difícil muitas vezes abrir a garrafa de vinho sem você.
Por fim:
Misteriosamente a última letra de música que ele fez uma tradução para mim fala de um amigo que vai embora. Não consigo por ora escutar Minha Casa de Lou Reed e que ele sempre ouvia com viva atenção e uma indescritível introspecção. Sei que a vida segue. Mas por ora ela segue difícil.
Amo meus poucos e queridos amigos e sei que você também ama os seus. Nessa vida sempre mais materialista e miserável e que estamos vivendo nesses tempos, lembramos bem: nossos amigos morrem. Abraçamos mais a eles e eles a nós.
Abraços aos que leram até aqui!



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