A travessia do túmulo à luz - Páscoa 2026
- blogcyzo
- 7 de abr.
- 3 min de leitura
Páscoa, psicanálise e a busca humana por vida com sentido
Existe uma imagem que atravessa gerações: a luz no final do túnel.
Ela aparece quando alguém descreve uma situação existencial difícil, um tempo de escuridão que, aos poucos, foi cedendo espaço ao clarão de algo novo. Poucos percebem, no entanto, o quanto essa imagem carrega de profundo e o quanto ela dialoga com duas grandes tradições de compreensão do ser humano: a Páscoa cristã e a psicanálise. Neste domingo de Páscoa, somos convidados a contemplar esse símbolo poderoso: a passagem. A travessia da alma.
Na Páscoa, o túmulo não é negado. Ele é real, concreto, pesado. A pedra existe. O silêncio do Sábado Santo existe. A ressurreição não apaga a Sexta-feira da Cruz, ela a atravessa. É precisamente porque houve morte que há vida nova. A Páscoa não promete ausência de dor; ela anuncia que a dor não tem a última palavra. Para a tradição cristã, ela representa a vitória da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas, da esperança sobre o desamparo. O anúncio de que o túmulo não é o fim, de que, mesmo onde tudo parece encerrado, algo ainda pode nascer.
O túnel não é o destino. É o caminho.
Na linguagem da psicanálise, especialmente em Sigmund Freud, a vida psíquica não é linear nem transparente. Há regiões em nós que permanecem ocultas, silenciadas, muitas vezes evitadas, o nosso inconsciente. É justamente ali que habitam nossas dores não elaboradas, nossos lutos, nossas angústias, nossos conflitos mais profundos.
Há momentos da vida em que nos sentimos como em um túmulo psíquico, um lugar de silêncio interno, de sombras e assombros, de repetição, de ausência de sentido, de solidão emocional. Como se algo em nós estivesse fechado, enclausurado, escuro, sem ar.
A psicanálise propõe, então, um movimento que não é imediato nem superficial: a travessia de si mesmo. Das próprias sombras. Do inconsciente em direção à consciência. Freud nos ensina que aquilo que não é simbolizado retorna muitas vezes como sofrimento, sintoma e repetição. Mas também nos oferece uma chave: quando conseguimos dar nome ao que sentimos, quando elaboramos nossas experiências internas, algo começa a se transformar.
Não é uma ressurreição mágica. É um processo. E, ainda assim, profundamente pascal, porque atravessar a dor é sair do túmulo. É permitir que a vida volte a circular. É reencontrar sentido onde antes havia apenas vazio.
A Páscoa, então, deixa de ser apenas um evento religioso e passa a ser também uma metáfora existencial. Todos nós, em algum momento, somos chamados a atravessar:
a deixar para trás versões antigas de nós mesmos,a enfrentar perdas,a suportar o não saber, a finitude,a permanecer um tempo no escuroe, quem sabe, a confiar que há algo além.
Talvez a grande mensagem da Páscoa, tanto espiritual quanto psíquica seja esta: a vida não se encerra no fechamento. Há sempre a possibilidade de abertura, de ressignificação, de novo começo. Mesmo que discreto. Mesmo que lento. Mesmo que imperfeito.
Nesse sentido, fazer um processo terapêutico é também um gesto pascal: é escolher não permanecer no túmulo interno, é se permitir atravessar e, pouco a pouco, reencontrar a própria luz.
Páscoa e psicanálise dizem, cada uma à sua maneira, a mesma coisa: não se chega à luz sem passar pelo escuro. O túmulo e o inconsciente são o mesmo convite, descer, enfrentar, atravessar para que algo novo possa, enfim, emergir.
Que túmulo você está pronto para atravessar?
Talvez a Páscoa mais importante não seja a que comemoramos no calendário, nem nas compras de chocolates, mas a que ainda espera por nós por dentro. Aquela que começa quando, finalmente, ousamos enfrentar o escuro e descobrimos que, do outro lado, há luz.
Gosto da metáfora do coelhinho como símbolo de uma Páscoa viva, ao contrário de uma Páscoa apenas de mercado. Diferente do tatu, que passa a maior parte do tempo em sua escura toca, o coelho quer sol, ar, vento, jardim, quer correr, pular, respirar. A Páscoa nos convida a esse mesmo movimento: sair de um ego encerrado narcisticamente em si mesmo e ir ao encontro das pulsões de vida que nos estimulam, nos conectam uns aos outros e devolvem sabor à existência. Quando nos tornamos um pouco melhores e, de alguma forma, melhoramos o mundo ao redor, isso também é Páscoa. Isso também é vida nova.
Feliz Páscoa! Feliz travessia.
Cyzo Assis
Psicanalista e Instrutor de Mindfulness




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